28 de ago de 2009

Pra festejar a vida e o tempo

eu acho que a vida anda passando a mão em mim

eu acho que a vida anda passando a mão

eu acho que a vida anda passando

eu acho que a vida anda

a vida anda em mim

a vida anda

eu acho que há vida em mim

há vida em mim

acho que a vida anda passando

a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo

quem anda me comendo é o tempo

se bem que já faz tempo, mas eu escondia

porque ele me pegava a força

e por trás

até que um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo, se você tem que me comer

que seja com meu consentimento, e me olhando nos olhos…

eu acho que eu ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem

que ando até remoçando.

viviane mosé – vida/tempo

22 de ago de 2009

De novo um novo amor - para Sophie Calle

ah Sophie

foste te apaixonar por um contador de histórias?

um encantador de serpentes?

você não sabe que o coração de um ilusionista mente?

Você não tinha que ter acreditado nesta relação,

com contrato, com acordo,

E com convenção

Amor não vive sob tutela

Ama o tempo que dura

Depois que se esvai

Não adianta ter cautela

Sophie

a tua dor

transformastes em arte

e eu que também sofri

assisti ao espetáculo

e me senti muito próxima de ti

pela arte e pela dor

que nos tornam fortes

e nos fazem acreditar

de novo num grande amor


6 de ago de 2009

O evangelho segundo Dostoiévski

... assim também eu infestei com a minha presença essa terra que antes de mim era feliz e não conhecia o pecado. Eles aprenderam a mentir e tomaram amor pela mentira e conheceram a beleza da mentira. Ah, isso talvez tenha começado inocentemente, por brincadeira, por coquetismo, por um jogo de amor, na verdade, talvez, por um átomo, mas esse átomo de mentira penetrou no seu coração e lhes agradou. Depois rapidamente nasceu a volúpia, a volúpia gerou o ciúme, o ciúme - a crueldade... Ah, não sei, não lembro, mas depressa, bem depressa respingou o primeiro sangue: eles se espantaram e se horrorizaram, e começaram a se dispersar, a se dividir. Surgiram alianças, mas dessa vez umas contra as outras. Começaram as acusações, as censuras. Conheceram a vergonha, e a vergonha erigiram em virtude. Nasceu a noção de honra, e cada aliança levantou a sua própria bandeira. Passaram a molestar os animais, e os animais fugiram deles para as florestas e se tornaram seus inimigos. Começou a luta pela separação, pela autonomia, pela individualidade, pelo meu e pelo teu. Passaram a falar línguas diferentes. Conheceram a dor e tomaram amor pela dor, tinham sede de tormento e diziam que a verdade só se alcança pelo tormento. Então no meio deles surgiu a ciência. Quando se tornaram maus, começaram a falar de fraternidade e humanidade e entenderam essas idéias. Quando se tornaram criminosos, conceberam a justiça e prescreveram a si mesmos códigos inteiros para mantê-la, e para garantir os códigos instalaram a guilhotina. Mal se lembravam daquilo que perderam, não queriam acreditar nem mesmo que um dia foram inocentes e felizes. Riam da possibilidade de um passado assim para a sua felicidade, e o chamavam de ilusão...

trecho do conto "O sonho de um homem ridículo" de Dostoiévski